O conceito de Falsas Urgências é comum nas técnicas de Produtividade Pessoal como GTD, ZTD, Inbox Zero e afins, que tratam, fundamentalmente, de como priorizar e organizar o seu tempo. Neste contexto, como o tempo é seu, você tem autonomia para definir o que é importante ou não para você. O que são urgências ou não, para você.

Porém, no ambiente de trabalho, normalmente, o entendimento é que temos que seguir as prioridades definidas pelo cliente, ou por nosso chefe, ou pela política da empresa. Neste contexto, surgem inúmeras falsas urgências sob as quais normalmente não temos poder de escolha ou decisão.

Mas será que não temos mesmo?

Atendimento a qualquer custo

Vou dar um exemplo prático: você é um líder de equipe ou gerente em um projeto de software e, no meio do desenvolvimento, o cliente informa que os trabalhos devem ser suspensos, pois uma demanda de urgência precisa ser atendida. Por se tratar de uma demanda de urgência, este cliente já entrou em contato com o seu chefe (e, muitas vezes, com o chefe do seu chefe) e relatou que a demanda de urgência precisa ser atendida a qualquer custo.

Quem trabalha com desenvolvimento de software há algum tempo já passou por isto e, infelizmente, sabe que esta situação de falsas urgências são extremamente rotineiras, criando um ciclo vicioso de constantes alterações de prioridades de demandas.

As consequências das falsas urgências

Este ciclo de repriorizações gera consequências terríveis para o projeto, para a equipe e para a própria empresa, além de claro, ao cliente. Vou listar aqui as que considero mais significativas:

1. Retrabalho 🔂

Temos o retrabalho de gestão, que envolve replanejamentos, atualização de cronogramas, acompanhamento das atividades, etc. E temos também o retrabalho do processo de engenharia em si: que envolve o projeto, implementação e testes da aplicação. Veja que mesmo que uma determinada funcionalidade esteja totalmente testada e concluída, se ela for implantada somente 1 ano depois, o código já estará velho e precisará ser reavaliado e, provavelmente, adaptado.

2. Pouca Concretização 😕

Uma vez que existe muito retrabalho, temos esforço sendo jogado fora e, consequentemente, estaremos concretizando menos coisas. Posso falar por experiência própria. Numa empresa em que trabalhei, passamos quase 1 ano inteiro com uma equipe de 6 pessoas, que não implantou uma demanda sequer, apesar de ter codificado pelo menos 4 novas grandes funcionalidades e algumas outras pequenas manutenções evolutivas. 1 ano sem concretizar nada, em função de mudanças de prioridade. É simplesmente lamentável.

3. Sensação de Fracasso 😔

Algumas pessoas conseguem se realizar apenas com “o fazer” algo. Ou seja, se realizam com trabalho em si, independentemente dele ser concretizado ou não. A pessoa sabe que está fazendo um trabalho bem feito, aproveitou o momento, aprendeu o que podia, etc. Se ele não foi concretizado, paciência. Que venha o outro. Mas, eu penso que a grande maioria das pessoas realmente se realiza quando vê o trabalho pronto e concreto. Um produto sendo utilizado e gerando resultados. Se termos repriorizações constantes, geramos muito retrabalho e, consequentemente, concretizamos pouco. Por fim, teremos muitas pessoas com a sensação de fracasso, uma sensação de que não estão realmente criando algo útil, ou gerando valor. Quando isto se repete muito, a motivação do time é drenada, em conjunto com a crença de que algo pode ser concluído algum dia.

4. Baixa Qualidade 👎

Pelas experiências que tive, os 3 itens anteriores nos levam a um ponto crucial, que é a redução da qualidade do trabalho. A pergunta feita por todos que passam por muitas repriorizações é: “Por quê irei implementar algo com qualidade se, muito provavelmente, isto não será implantado?”. Com o passar do tempo, os produtos gerados têm uma qualidade menor. Além disso, o alto índice de erros retro-alimentam o retrabalho, a pouca concretização, a sensação de fracasso e, novamente, a baixa qualidade. Facilmente entra-se num ciclo vicioso sem fim.

5. Desmotivação Profissional 😥

Toda esta sequência de passos mina lenta e progressivamente a motivação profissional de qualquer um. Como resultado, isto faz com que o profissional se pergunte se escolheu a profissão certa, se é um bom profissional, ou, ainda, se está no lugar certo. Dependendo do perfil desta pessoa, ela pode simplesmente aceitar esta realidade e “deixar para lá”. Neste momento, muito provavelmente, esta pessoa estará deixando de ser um bom profissional, e a empresa estará perdendo a sua real capacidade intelectual.

O que quero dizer com tudo isto?

Apesar de, normalmente, acharmos que não temos poder de decisão ou escolha quando estas situações surgem, a realidade é que temos sim poder de escolha. Temos sim poder de decisão, mesmo quando, aparentemente, são situações alheias à nossa vontade.

Se você é um gestor, você tem este poder e ele consiste em usar uma palavra com apenas 3 letras: NÃO. Se você é uma pessoa desenvolvedora, designer ou profissional envolvido em qualquer tipo de projeto ou empresa, você também tem este poder, e consiste em dizer NÃO.

Simples assim.

Isto é, não podemos esquecer que precisamos buscar ser eficazes, precisamos buscar fazer o que é certo, o que agrega mais valor, o que é sustentável. Pois, se não fizermos isso, no final, teremos que correr para compensar as decisões erradas que tomamos.

Aconteceu comigo. E agora?

Nunca vou esquecer de uma situação que aconteceu comigo há algum tempo: eu estava participando de um projeto e tentava argumentar com o cliente que a decisão que ele tomou era ruim, pois implicaria em uma solução mais cara, que os usuários não precisavam — enquanto o time estava sugerindo um solução mais simples, que reconhecidamente era suficiente para resolver o problema e ficaria pronta mais rapidamente. E ele falou diretamente para mim:

Rafael, isto não é atribuição sua. Quem tem que avaliar o que tem mais valor sou eu, não você!

Foi duro. Mas nem por isto eu parei de tentar. No final, mesmo não tendo assumido, ele optou pela nossa sugestão ao invés da dele e, consequentemente então, o projeto foi mais bem sucedido a partir daquele momento.

Você, como profissional, tem a obrigação de demonstrar para o seu chefe ou ao seu cliente o que mais agrega valor, seja ao trabalho em si, à empresa ou ao produto. No entanto, se ele não enxerga, mostre, demonstre, exemplifique, busque saber o porquê das decisões, convença-o. Além disso, caso você sinta segurança, não tenha medo de dizer não e buscar fazer o que é certo.

As falsas urgências são a origem de todos estes problemas. Portanto, combata-as com todas as suas forças e, acima de tudo, não subestime o poder negativo que elas têm!


Hoje tenho a minha própria empresa, a Impulso, na qual nutrimos uma cultura organizacional focada em decisões sustentáveis, na transparência e colaboração direta entre os times e os clientes. Assim, conseguimos minimizar falsas urgências e atuar no que gera mais valor o tempo todo. 🙂