O que você pensa quando alguém fala em empregos do futuro? Em extinção de profissões, em especial aquelas repetitivas ou previsíveis que podem ser aprendidas por uma máquina? Ou, por outro lado, no surgimento de outras tantas possibilidades de atuação, principalmente relacionadas à inteligência, ao planejamento e à criatividade?

Apesar de dissonantes, ambas as perspectivas estão pautadas nas mudanças causadas pelo avanço da automatização e da inteligência artificial. Em entrevista à revista Época Negócios, a consultora de tendências Daniela Klaiman disse acreditar em um meio termo entre os dois extremos. A especialista ainda trouxe um recorte de gênero relacionado ao futuro do trabalho.

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Como será o futuro do trabalho para o público feminino?

Segundo a análise de Daniela, quando as máquinas começarem a ensinar outras máquinas (olha a Internet das Coisas aí), as profissões criativas sobreviverão em um primeiro momento. Depois, as que dependem de uma atuação humanizada vão ser aquelas que terão continuidade, de acordo com o raciocínio da consultora. São exemplos de carreiras que, nesse contexto, tendem a perseverar no longo prazo: psicologia, enfermagem e fisioterapia, que demandam determinadas características que não podem ser aprendidas por robôs.

É aí que entra a relação entre os empregos do futuro e o potencial das mulheres na perspectiva da futurista. “Quanto mais a máquina faz as coisas substituíveis, o que é mais humano é o que prevalece. O que é mais feminino também”, garante Daniela, que enxerga a humanização na trajetória das mulheres no ambiente profissional até então.

Ela explica: historicamente, os homens buscavam carreiras mais voltadas à medicina ou à engenharia, que davam prestígio e, claro, dinheiro. Às mulheres, ou pelo menos à boa parte delas, sobravam as profissões que os homens não queriam seguir e que eram mal pagas. Contudo, as mudanças trazidas pela tecnologia fazem com que os serviços inicialmente assumidos em maior escala pelo público masculino, como a advocacia, a economia e as finanças, possam ser os primeiros a serem substituídos por máquinas.

Por outro lado, as atividades encaradas pela maioria das mulheres até então tendem a perseverar, conforme explica Daniela. Há, portanto, um paradoxo interessante neste cenário. As habilidades que menos deram dinheiro até então serão demandadas (e finalmente bem remuneradas) nos empregos do futuro. Não se trata da continuidade apenas das profissões mais ocupadas pelas mulheres, mas da valorização das habilidades que a maioria delas teve de desenvolver ao longo dos anos para entrar no mercado de trabalho.

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empregos do futuro

Empregos do futuro: quais são as características possivelmente mais comuns às mulheres no mercado de trabalho que serão valorizadas?

Diferentemente da lógica aplicada ao mercado de trabalho até então, não serão somente as hard skills, mas principalmente as habilidades soft que serão exigidas pelos empregos do futuro. Estamos falando de competências emocionais, sociais e comportamentais em detrimento ao conhecimento puramente técnico.

Essas qualidades são adquiridas muitas vezes em cursos das áreas de humanas, comunicação ou saúde, onde a parcela feminina prevalece. Afinal, o Censo da Educação Superior já demonstrou que as mulheres continuam sendo minoria (41%) nos cursos relacionados às ciências exatas no Brasil.

Levando esse contexto em consideração, é válido acrescentar o que especialistas em recursos humanos dizem que é comum encontrar nas mulheres. Veja:

1. Empatia

A capacidade de colocar-se no lugar de outra pessoa sem grande esforço é um dos grandes trunfos femininos no mercado de trabalho. No entanto, só foi mais recentemente que a empatia começou a ser valorizada enquanto competência nas carreiras e nas empresas.

Os relacionamentos interpessoais nesse âmbito têm e terão cada vez mais importância nos empregos do futuro.

Na prática, a empatia envolve uma escuta qualificada, olhando e acolhendo o interlocutor, sem julgamentos e também sem dividir a atenção com atividades paralelas. Essa habilidade tem grande impacto na comunicação com colegas de trabalho (com uma melhor capacidade de gerenciar equipes, por exemplo), fornecedores e clientes por meio da formação de laços de cumplicidade.

2. Facilidade para trabalhar em equipe

O senso de colaboração que pode ser encontrado nas mulheres faz com que o trabalho em equipe seja facilitado por elas. É comum que elas entendam que não se faz nada sozinha ou sozinho, principalmente nos modelos atuais de trabalho, com times distribuídos, por exemplo. Por isso, delegam e assumem funções complementares, o que faz com que os resultados possam ser atingidos com mais fluidez.

Ainda sobre a entrevista da consultora Daniela Klaiman, esse tipo de função, que envolve planejamento, vai ser cada vez mais comum daqui para frente com os empregos do futuro. Ela acredita que a sociedade irá terceirizar o trabalho que não quer mais fazer, como o de contas, que os algoritmos conseguem resolver. “É como se a gente pensasse, e a máquina realizasse as coisas a partir daí. Eu acho que o nível efetivamente gerencial vai ter um valor muito grande. E eu vejo a máquina executando as estratégias que foram feitas por pessoas. A gente tem que pegar o melhor que a máquina tem a oferecer e juntar com o melhor que o ser humano tem a oferecer”, pontua.

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3. Resiliência

Para muitas mulheres, chegar e manter-se no mercado de trabalho por si só já exige altos níveis de resiliência. Afinal, as tarefas domésticas ainda pesam mais sobre elas. De acordo com um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o público feminino gasta 7,6 horas a mais todas as semanas com os cuidados da casa, o que se reflete em cansaço, menos tempo para estudo ou networking e por aí vai.

Essa característica de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir a pressões diversas normalmente é mantida no dia a dia pelas mulheres. Pelo menos é o que a maioria dos executivos de alto topo da União Européia relatou há quase uma década no estudo da consultora Accenture intitulado Women Leaders and Resilience: Perspectives from the C-Suite. A falta de uma mudança cultural e de redes de apoio foram apontadas como justificativas para a manutenção da falta de equilíbrio de gênero no poder

Até os empregos do futuro se estabelecerem, no entanto, se espera que a igualdade de gênero comece dentro de casa e se estenda até o ambiente de trabalho.

Afinal, a romantização dos esforços das mulheres para dar conta de tudo, especialmente do combo casa, filhos e profissão, é algo que nunca fez sentido.

Conclusão

Levando em consideração a análise da especialista ouvida pela revista e também a forma com que as mulheres são socializadas, é possível afirmar que, sim, há um potencial feminino frente aos empregos do futuro. Isso se deve, em grande parte, às soft skills, que tanto defendemos, discutimos e incentivamos o aprendizado na Impulso Network por meio de threads, meetups e cursos específicos (faça parte disso tudo clicando aqui).

No entanto, o público feminino ainda é minoria na tecnologia que é produzida atualmente. A Wired estimou que somente 12% dos principais pesquisadores de machine learning são mulheres, o que é especialmente sintomático, já que as máquinas estão moldando a sociedade de amanhã. Então, por mais que determinadas características encontradas no público feminino com maior frequência venham a ser valorizadas no futuro do trabalho, elas ainda precisam conquistar espaço para serem, dentre outras coisas, mineradoras de asteróides, técnicas de carros autônomos ou de impressão 3D.

O que você tem feito para diminuir o GAP entre homens e mulheres para que o mercado de trabalho seja mais igualitário? Vamos começar a discussão nos comentários!